A Paisagem é um Estado de Alma

Encanto, 2005.  Óleo s/ tela 130 x 130cm

Encanto, 2005. Óleo s/ tela 130 x 130cm

“Uma paisagem pode ser o lugar dos sobressaltos íntimos”, onde “a luz é reinventada como breve fulgor a irromper inesperadamente (…) das trevas em muda suspensão”, conforme escreve Vasco Graça Moura, no prefácio que dedica a Catarina Pinto Leite, a propósito da pintura que expôs, em Fevereiro de 2004, na Galeria São Mamede, Lisboa. Volvidos 2 anos, a sua linguagem pictórica permanece fiel a si mesma, oscilante entre as tonalidades nocturnas de melancólica ressonância e a surpreendente aurora de vermelhos incandescentes.

No vaivém que estabelece entre a visão fantasmática e intimista da natureza e a sua dissolução espacial, a paisagem é um estado de alma, na pintura de subtis vibrações luminosas de Catarina Pinto Leite.

Fluente, densa e atmosférica, a sua pintura de silenciosas velaturas reporta-nos à imensidão de mares, nuvens e planícies de horizontes infindos.

Da penumbra emerge a evanescente e discreta luz que se vislumbra em repentinos brancos sabiamente doseados. “Efeitos Fugidios”, 2006, e “Para além de nós”, 2006, são exemplos a reter, com verdes, azuis e ocres, e, em alusão ao Porto, “Segredos do Rio” (Douro), 2005, em frios verdes azulados. A envolvente neblina mal deixa ver a vaga sugestão de ponte, num quadro em tons quentes, intitulado “Encanto”, 2005, com amarelos e ocres diluídos. No alongado quadro “Travessia”, 2005, sobressai o intenso vermelho alaranjado, bem como em “A Ilha”, 2005.

A luminosidade é primordial no paisagismo abstractizante de Catarina Pinto Leite, que não abdica das múltiplas nuances do claro-escuro.

Em “Abstracção”, 2005, tons diurnos, verdes azulados, amarelos, ocres e súbitos clarões esbranquiçados promovem a diluição de fronteiras na visão difusa de um espaço de infinitude.

Em “Um Vago de Visão”, 2006, o olhar paira em horizontes sucessivos, na incerteza do que se indefine em densos castanhos, ocres alaranjados e escassos brancos.

A pintura, que continuamente se desfaz e se refaz na persistente horizontalidade da paisagem, desencadeia em nós a capacidade de ver, sentir e reflectir sobre esse espaço aberto e ilimitado.

Olhando a exposição, no seu conjunto, deparamos com obras que, em termos paisagísticos, simbolizam a noite e o dia.

A noite oculta o que o dia revela. Da mais obscura treva emerge a ténue luz redentora da madrugada. No alvor do novo dia, tudo se dissolve na transparência luminosa do espaço atmosférico. Ao mistério da obscuridade nocturna se contrapõe a vibrante dissonância diurna da cor tímbrica, entretanto recuperada na sua pureza máxima.

Eurico Gonçalves
Fevereiro, 2006