Questionar a opacidade da noite

Refúgio do Tempo, 2005. Óleo s/ tela   140 x 120cm

Refúgio do Tempo, 2005. Óleo s/ tela 140 x 120cm

Uma paisagem pode ser o lugar dos sobressaltos íntimos, como os quadros de Catarina Pinto Leite nos vêm dizer no seu registo muito pessoal. A representação desliga-se então das coordenadas convencionais, a perspectiva tradicional altera-se, a matéria ganha novas consistências, os planos fundem-se ou interpenetram-se de acordo com as pulsões ditadas por um imemorial impulso lírico e onírico, enquanto a luz é reinventada como breve fulgor a irromper inesperadamente do avesso do dia ou das trevas em muda suspensão, aqui e ali, a deixar entrever o inominável e o interdito.

Catarina revisita tonalidades nocturnas que perpassam na atmosfera e que Caspar David Friedrich não teria desdenhado explorar, reencontra ecos surdamente românticos, feitos de vibrações e reverberações que não vão sem fazer lembrar as cadências célebres de Gérard de Nerval: “Ma seule étoile est morte, – et mon luth constellé / Porte le soleil noir de la Mélancholie”. Porque é de uma melancolia transparentemente organizada, através do negrume entrecortado e da luminosidade dos seus “soleils noirs” de ocasião, que esta pintura nos fala nas suas propostas de deriva incessante entre o lado de dentro e o lado de fora, de vaivém entre o mundo e a alma, nas inúmeras presenças, cintilações e ressonâncias de uma solidão radical, nas próprias transições dos fluídos espacializados para as incrustações e densidades da matéria.

São marcas, manchas, efusões que se vão segregando e alastram como um tempo de silenciosas velaturas, procedem por uma discreta musicalidade, flutuam a meio caminho entre o gestual, o informal, o expressionista, algumas sugestões e morfologias referenciais mais esporádicas… Avulta nelas o que poderiam ter sido planícies e mares de uma memória obscuramente, obstinadamente perseguida, fantásticas nuvens, cordilheiras de sombras e vazios, nos seus espaços-tempos que se engendram encantatoriamente (hipnose? alucinação?) como refúgios do ser ensimesmado e rasgamento de visionarismos.

Se os continuamos a fixar, ocorrem à mente mais fragmentos desgarrados de poemas, como o amargo “ontem pôs-se o sol e a noute” da sextina de Bernardim, ou o fatal “eclipse nesse passo o sol padeça” do soneto de Camões. Mas, como quer que os olhemos, estes quadros, que são modos de representação da noite, também põem em questão a própria opacidade da noite.

Vasco Graça Moura.
Novembro 2003