Terra inóspita

Casa com vista, 2009. Técnica mista s/ tela 100 x 73cm

Casa com vista, 2009. Técnica mista s/ tela 100 x 73cm

Catarina Pinto Leite diz-me que teve presente nestes quadros a tragédia que há pouco tempo atingiu a cidade italiana de Aquila. Na sua revisita plástica desses lugares de desgraça, há experiências formais em que o gesto rápido procura estruturas ligadas à paisagem urbana que acabam por se desconjuntar.

Fica-se assim perante a emergência de uma espécie de escrita feita a partir de grandes “caracteres”, ou, se se preferir, de um alinhamento de fortes blocos rasgados no espaço, ou rasgando o espaço, tudo se interpenetrando, como se de tudo apenas pudessem permanecer umas ombreiras oscilantes, restos de algo que se desequilibrou e nos desequilibrou, vestígios, alusões àquilo que antes existia e àquilo a que tudo ficou reduzido.

O que fica depois de tudo ter sido abalado, os seus melancólicos vestígios, as suas superfícies espraiando-se entre o negro e o amarelo, as cores de uma terra batida pelo sol, pela desgraça, pelo sentimento trágico da vida. O que fica é este trajecto de agonias recuperadas contra o esquecimento, este indagar obsessivamente poético na sua grave melancolia de percorrer escombros e cinzas que vão emergindo num desfile sobre horizontes instáveis, a que alguns dos fundos metalizados a prata conferem ainda uma tonalidade húmida de ameaças. Tanto seguimos por paisagens de terra e água vistas a uma certa distância, como nos aproximamos de casas, muros e outras construções, podendo deambular entre elas e as sombras escurecidas e lunares que elas nos vão reenviando nestes como que cenários de uma ópera trágica a delir-se nos mares e nos sarros da memória.

São imagens de uma terra inóspita em que o olhar entra, forçado a aceitar que nada do que é humano nos é alheio, que os sonhos podem facilmente esbarrar com fragmentos de pesadelos proporcionando-nos uma segunda natureza e que o tempo vai consumindo os seres e as coisas. Mas aqui ao tempo juntaram-se a catástrofe e o sentimento de uma solidão que nos confronta com o destino e com tantas das suas cruéis imprevisibilidades.

Vasco Graça Moura.
Outubro 2009.