Uma luz assim suave, prateada

Tejo ao entardecer, 2007. Técnica mista s/ tela 73 x 100cm

Tejo ao entardecer, 2007. Técnica mista s/ tela 73 x 100cm

Por trás da pintura, dos quadros, há sempre histórias. Muitas vezes os artistas escondem-nas, e refugiam-se num silêncio que é próprio desse mundo de fomas e cores onde a palavra raramente entra. Para conhecermos o que se esconde além da pintura, é preciso quebrar a reserva natural de que o pintor se reveste e, se ele o deixar, entrar nesse mundo onde a arte acontece.

Com Catarina Pinto Leite as coisas não se passam de forma diferente. Ficamos assim a saber que quis, para esta exposição, tratar o tema da cidade onde vive, essa cidade que tem uma luz diferente de todas as outras, que a caracteriza e lhe imprime a sua qualidade única. Tendo que realizar um trabalho que a levou à colecção do Arquivo Fotográfico de Lisboa, percebeu que o preto e o branco eram suficientes – tinham-no sido, durante décadas – para transmitir essa qualidade lumínica que a interessava. Deste contraste primordial surgiu depois a folha de prata aplicada – técnica que domina, já que durante anos praticou o paciente trabalho de restauro da pintura antiga -, e que toma aqui o lugar do céu: céu de prata, assim, mas também espelho, já que este metal foi uma das matérias de que os espelhos antigos se fizeram.

Com uma prática matizada por essa técnica de constante refazer o antigo que domina, talvez Catarina Pinto Leite procurasse apenas o brilho líquido e metálico que lhe sugeriam as manhãs desbotadas de Inverno, quando do rio vem uma neblina pesada que envolve a Baixa, escorre pelo Rossio e pela Avenida acima, chega aos bairros novos a norte e se mistura com os ruídos e os fumos da capital para fazer sentir o frio áspero de todos os dezembros urbanos. Talvez a artista pensasse apenas no esboroar das cores e das formas que a humidade traz consigo, ou nos focos de luz que semáforos, faróis, candeeiros – e o sol às três da tarde – que assomam entre as sombras.

É que esta é uma pintura urbana, e também um pouco mundana, bem à imagem da vida de todos os dias na cidade grande. Uma pintura que também procura as suas raízes no romantismo oitocentista, esse que via na Natureza um reflexo da alma do artista. Como os olhos eram e são o espelho da alma, assim esta luz metálica reflecte o estado de espírito de quem a vê e quem a pinta. No sentido literal, mesmo, já que a prata permite entrever a silhueta do visitante na paisagem pintada. Esta é uma pintura a seguir e a observar com atenção no seu desenvolvimento futuro.

Luísa Soares de Oliveira