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sem título, 2014. Técnica mista s/ tela 165 x 200cm

Catarina Pinto Leite expõe individualmente desde a segunda metade da década de noventa e a sua produção artística tem incidido essencialmente na pintura. Detentora de um domínio técnico assinalável e com formação no restauro de pintura antiga, no seu trabalho, essencialmente realizado a óleo sobre tela, ela vem reflectindo o interesse que lhe desperta o tratamento abstractizante e atmosférico da paisagem.

A relação com a natureza e a atenção ao seu quadro temporal e espacial de contínua transformação e transitoriedade foram desde sempre duas linhas fortes e essenciais que nortearam a sua criação pictórica. Desde o início da sua trajectória artística, Catarina Pinto Leite destacou-se na criação de imagens plásticas próximas de uma figuração de cariz neo-romântico, onde o emocional prevalece sobre o racional e onde a cor é por excelência a expressão de sensações vividas perante a paisagem.

Nos óleos realizados em diferentes momentos da produção da artista, encontramos paisagens naturais e urbanas do seu país ou atmosferas e vestígios de paisagens mais distantes, cuja realização plástica evidencia a sua contribuição subjectiva e a apreensão sensorial dos motivos presentes no seu trabalho. Essas paisagens, bem como as variações de cor que pratica, evocam e expressam estados de intensidade e inquietude existencial, sentidos e planos de transcendência, onde se pressente a aproximação singular, intimista e poética que mantém com os lugares. De resto, como afirmou num pequeno texto que acompanhou o seu trabalho numa exposição datada de 2010: “Tudo o que é subjectivo, espiritual, abstracto e misterioso fascina-me.” [1]

Nas reflexões, sentidos, gestos e poéticas que sustentam a sua prática ressalta sempre um interesse em valorizar o legado metafísico e espiritual da arte, tendo como fonte de inspiração linhas e valores de representação de diversas linguagens estéticas que oferecem possibilidades de reflexão sobre o poder transfigurador, ritual e sensível da arte. Nesse sentido podemos testemunhar a sua cumplicidade com o espírito do romantismo oitocentista e a obra pictórica de William Turner, os quais surgem como referências indirectas mas assinaladas do seu trabalho.

Na pintura de Catarina Pinto Leite combinam-se evocações de paisagens claras e nocturnas, da representação de elementos referenciais da natureza, repetido domínio do líquido e do telúrico, aos apontamentos arquitecturais, normalmente vazios da presença humana e com marcas de ausências e silêncios reveladores. Protagonizam-nos o céu, o vento, a luz, o passar do dia e da noite, evidenciando-se as transparências e a diluição das formas, as velaturas e os efeitos de obscuridade nocturna e de luminosidade ténue que intensificam o efeito dramático recorrente na sua obra.

Essas qualidades de organização e acentuação do espaço como matéria de desgaste da memória são evidentes, por exemplo, em “Exercícios da Noite”, exposição de 2004 onde Catarina Pinto Leite apresentou paisagens nocturnas, reproduções plásticas da atmosfera e da temporalidade inscritas nos locais evocados. As suas representações do Rio Douro ou da paisagem e luz lisboetas, na mostra “Uma luz assim suave, prateada…” de 2007, expunham um trabalho de pendor autobiográfico, assente na relação pessoal, afectiva com a cidade que habita e as vistas predilectas que a recortam. Em 2009, na obra “O Lugar em Questão”, evocou a paisagem urbana, as ruínas e os vestígios da cidade italiana de Aquila, expressando quer o poder e a força da natureza quer a sensação de fragilidade humana, a sua solidão e melancolia. Já a sua última mostra realizada em 2013, “O Mundo Precisa de Mais”, era composta por trabalhos nos quais aludia a lugares de passagem – nomeadamente pontes – que sugerem a existência de um percurso e pelos quais intuímos um movimento simbólico, de abertura e procura de outros horizontes existenciais.

Para esta exposição individual na Sala do Veado, Catarina Pinto Leite escolheu um conjunto de trabalhos em que a pesquisa e o exercício experimental, sustentados na dimensão intuitiva da prática artística, se oferecem como aspectos determinantes de um processo criativo assente no aprofundamento do sentido abstracto da pintura e do sentido gráfico do desenho.

Intitulada Intermitências, a mostra comissariada por Manuel Costa Cabral reúne 18 estudos preparatórios a tinta-da-china e grafite e 20 trabalhos recentes de diferentes formatos, nos quais a artista revela uma direcção de trabalho com novas possibilidades.

Se em obras anteriores a sua produção se caracterizava por cenas e motivos tematicamente enquadrados numa visualidade e sensibilidade estéticas muito próximas do neo-romantismo, nas obras agora apresentadas o sentido de abstracção surge mais evidenciado, num registo de maior depuração e essencialidade em relação a séries já realizadas. É uma viragem já pressentida em “Forças da Natureza” (2010), nomeadamente em trabalhos como “Outro Lugar”, “Tudo por Descobrir” e, sobretudo, em “Insustentável Leveza”; mas é outra a intensidade dos trabalhos actuais.

Em detrimento das opções estilísticas que aproximavam os registos anteriores (por exemplo, o uso e a paleta de cores), na mostra agora realizada sobressaem a mancha, os fundos mais abstractos, os contornos informes, o claro-escuro e os jogos de luz e sombra de maior sentido gráfico. Patentes nas obras expostas, a coexistência de diferentes possibilidades de explorar as formas inscritas, a textura do papel, a densidade do preenchimento, o ritmo, a direcção, o contraste, a intensidade e a marca do tratamento da tinta-da-china reforçam a mudança. As obras “Fenda”, “Espírito do Lugar” ou “Divisível” são disso exemplo. Outra característica determinante das obras em exposição é a inclusão de figuras, que surgem também sob a forma de mancha, como ocorre em “Casa Habitada”.

Com esta viragem, Catarina Pinto Leite marca nas suas composições uma relação enigmática e distanciada com a nossa realidade perceptível, sem porém deixar de a expressar, traduzindo e ampliando sobremaneira o espaço de possibilidades interpretativas e  o sentido metafórico do conjunto.

Inseparável desta abordagem, a Alegoria da Caverna, tema (mas também título de uma das obras expostas) que explorou intensamente através das diversas relações estabelecidas entre os motivos gráficos e plásticos referidos, funciona como fio condutor num percurso dinâmico que, de quadro a quadro, de imagem a imagem, nos oferece associações complementares de leitura e convoca questões de âmbito filosófico e metafísico, entre a natureza da visão e da percepção, a aparência da realidade e a natureza da verdade, os sentidos estabelecidos entre a claridade e a escuridão, a luz e a sombra, o ser e o parecer, o ser e o não ser, deixando em pano de fundo a dicotomia entre o plano sensível e o das ideias.

Nesta exposição é também essencial referir a ideia de “Intermitências” que lhe dá título. Através dela a artista invoca a ideia de transitoriedade, aludindo a questões relativas ao pulsar da vida, aos intervalos, a processos de interrupção, aos ciclos da natureza, situando a dimensão literal e simbólica da luz/escuridão como elemento primordial da sua prática.

Interessante nesta exposição é presença de um conjunto de desenhos preparatórios, que em complemento às peças expostas, revelam muitos dos caminhos traçados durante o processo de trabalho da autora, permitindo ao espectador aceder a fases particulares de pesquisa e exercício da sua criação plástica. Relacionando alguns dos esboços e séries presentes na mostra, acontece por exemplo destacar-se a intensificação do grau de depuração formal de certos registos da sua obra actual e evidenciarem-se as transformações que certos motivos e pormenores experimentam em diferentes momentos do desenvolvimento da sua produção artística. Uma oportunidade que constitui, sem dúvida, um apelo suplementar à descoberta ou redescoberta da obra da artista.

Sandra Vieira Jürgens.

[1] Catarina Pinto Leite in Forças da Natureza. Lisboa: Galeria de São Mamede, 2010, p. 1.