O Sótão

Distribuo estas imagens
À minha frente como num terraço. Na orla da varanda
A luz com o seu peso enorme resvala para fossos. (…)
Não é possível demarcar o espaço
 onde estou. Estive aqui e no horizonte. Com os lábios
vergados
a colher os grãos amargos, e com a cabeça
sobre um estrado. Reinava sobre a essência das coisas,
na minha presença alheia, assim como agora compreendo
que estou de posse dos dados completos dos seres
vagos. As cores esfumadas, a indecisão do meu lugar.
(…)[1]
[1] Fiama Hasse Pais Brandão, “As Cores de que se compõe a sebe desalinhada”, in Área Branca, Lisboa: Editora Arcádia, 1978

 

A memória das paisagens que pintou durante vários anos abre, escondida, o espaço das linhas de terra ou de horizonte que serpenteiam a folha, dividindo-a de modo severo mas vital: severo porque tornado mínimo e elementar; vivo, porque orgânico, decidido e decisivo na inscrição topográfica. A suspensão dos lugares na parte superior, média ou inferior da folha determina a tonalidade interior a que se entrega o olhar: flutuante, em perspectiva ou em procura de um chão, respectivamente.

Esse é o primeiro dispositivo de relação com as áreas circundantes que nos é proposto, informando sobre a origem dos traços mas sobretudo pedindo formas de receptividade diferenciadas e alternadas – não sentimos do mesmo modo a elevação, a projecção, o declive, a interrupção, o rodopio, o plano esquinado, o prolongamento ou a pequena anotação. Não passamos incólumes do espaço aberto ao perímetro geométrico, da recta à linha sinuosa, do alçado à espiral, da nervura e da curva antropomórfica à coluna e ao pedaço de muro, do gesto liberto ao recinto disciplinado.

Um desenho a grafite de grandes dimensões mapeia a deriva vocabular destas séries: na depuração de formas que também persegue e na ocupação contida do papel a que se obriga, consegue manter liberdade expressiva, informalidade, sequência e preenchimento. Esta é a matriz, porventura endurecida pela simples cor negra do lápis, dos grandes desenhos em que trabalha com pastel seco colorido e nos quais a cor liquefaz aquele esquematismo, amacia as coordenadas do lugar fazendo delas manchas ténues, quase transparentes, uma pele fina sobre o apelo táctil do papel, um apaziguamento.

O sótão de um ateliê é forçosamente o sótão de uma infância, o lugar retirado da fantasia e da “arrumação” da memória no qual cada telha ou trave de madeira, cada tábua de chão envelhecida ou falha visível se elevam à condição de indício, de mobilizador secreto, de forma pregnante. No caso da artista, o sótão arquetípico coincide com o sótão real, aquele que o ateliê realmente é ou tem, numa sobreposição feliz de circunstâncias: os recintos, os tectos esconsos e as esquinas, a clarabóia, as linhas flutuantes e os planos inclinados, as zonas de sombra e de luz, as pequenas imperfeições são abrigo, circunscrição, surpresa, defesa, prospecção, contaminação e referente reais, mas também alfabeto formal, sugestão térmica e cromática, impregnação imaginária.

O caminho que seguem as linhas que nele se desenham habitam o olhar, depois o corpo dos gestos e finalmente a quimera de quem risca ou suja (ou limpa!) o papel do modo sensível que estes grandes e pequenos formatos testemunham.

A pedra em bruto da qual se extrai aquela que será preciosa figura, por hipótese, uma outra zona metafórica deste trabalho: talvez nos auxilie a entender as formas tendencialmente quadradas ou arredondadas que fecha e preenche, que reifica, que retira do espaço e de qualquer hipótese de “paisagem”. A sua condição é radicalmente abstracta, a luz negra circunda-as ou preenche-as, a sua massa densifica resolutamente o seu potencial energético. O futuro duma pedra em bruto dificilmente é sinalizado com clareza e não sabemos qual a deriva inscrita nas que nos desenha.

O feixe estreito de luz amarela que atravessa um dos blocos terá origem nessa nascente que parece erguer-se atrás das casas e é montanha, ou dorso de baleia, onda gigante ou apenas sol. Quando interiores, os espaços abrem o seu segredo atmosférico a uma dissolução de fronteiras que os expõe a narrativas inesperadas, a queimaduras, a estrias, a nuvens baixas, fracturas e fragmentação, mas também isomorfismos desafiantes, novelos em movimento, correntes de ar, articulações, massa orgânica, corredores, janelas e (des)encontros.

O negro é uma rotina do desenho, mas é, ao mesmo tempo, assunção das trevas e da destruturação. O negro pesa, empurra ou afunda, submerge quando é mancha; e esquematiza, direcciona, anota, rodeia, acompanha, fende, quando é traço. Clama pelas cores do fogo que fabrica as cinzas, mas pode seguir sozinho o sulco cavado de um perímetro assumindo retoma construtiva. “A luz com o seu peso enorme resvala para fossos”, azul ou dourada, até que fique escura.

O desenho abre cada imagem a uma latência tridimensional que empurra a superfície para o acolhimento pontual da colagem, da textura, da experimentação sóbria de outros materiais – cartão e K-line – ou a definição de formas com o fogo: numa série, a artista molda pedaços de K-line queimado, tolhendo e procurando formas que reproduzem os buracos do rodapé, mas são por si só alfabeto abstracto duma relação com o horizonte visível, com a barreira que ele constituiu, sendo também apelo.

Esta possibilidade do volume existe em pequenos objectos que normalmente não expõe, mas fazem caminho na decisão de alguns desenhos, na sua forma de ser fendidos e estriados. Fiama fala na “indecisão do meu lugar”; a artista figura a do seu: uma geografia móvel que eleva um casulo, um sítio secreto à condição de universo pessoal, sem o fechar nem abrir em excesso, fazendo pontes cautelosas, horizontes provisórios, “cores esfumadas”, deriva fantasista e oferenda de pequenos mundos feitos à mão levantada e “com a cabeça sobre um estrado”.

Lisboa, 22 de Janeiro de 2017, Leonor Nazaré