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O Sótão

Distribuo estas imagens
À minha frente como num terraço. Na orla da varanda
A luz com o seu peso enorme resvala para fossos. (…)
Não é possível demarcar o espaço
 onde estou. Estive aqui e no horizonte. Com os lábios
vergados
a colher os grãos amargos, e com a cabeça
sobre um estrado. Reinava sobre a essência das coisas,
na minha presença alheia, assim como agora compreendo
que estou de posse dos dados completos dos seres
vagos. As cores esfumadas, a indecisão do meu lugar.
(…)[1]
[1] Fiama Hasse Pais Brandão, “As Cores de que se compõe a sebe desalinhada”, in Área Branca, Lisboa: Editora Arcádia, 1978

 

A memória das paisagens que pintou durante vários anos abre, escondida, o espaço das linhas de terra ou de horizonte que serpenteiam a folha, dividindo-a de modo severo mas vital: severo porque tornado mínimo e elementar; vivo, porque orgânico, decidido e decisivo na inscrição topográfica. A suspensão dos lugares na parte superior, média ou inferior da folha determina a tonalidade interior a que se entrega o olhar: flutuante, em perspectiva ou em procura de um chão, respectivamente.

Esse é o primeiro dispositivo de relação com as áreas circundantes que nos é proposto, informando sobre a origem dos traços mas sobretudo pedindo formas de receptividade diferenciadas e alternadas – não sentimos do mesmo modo a elevação, a projecção, o declive, a interrupção, o rodopio, o plano esquinado, o prolongamento ou a pequena anotação. Não passamos incólumes do espaço aberto ao perímetro geométrico, da recta à linha sinuosa, do alçado à espiral, da nervura e da curva antropomórfica à coluna e ao pedaço de muro, do gesto liberto ao recinto disciplinado.

Um desenho a grafite de grandes dimensões mapeia a deriva vocabular destas séries: na depuração de formas que também persegue e na ocupação contida do papel a que se obriga, consegue manter liberdade expressiva, informalidade, sequência e preenchimento. Esta é a matriz, porventura endurecida pela simples cor negra do lápis, dos grandes desenhos em que trabalha com pastel seco colorido e nos quais a cor liquefaz aquele esquematismo, amacia as coordenadas do lugar fazendo delas manchas ténues, quase transparentes, uma pele fina sobre o apelo táctil do papel, um apaziguamento.

O sótão de um ateliê é forçosamente o sótão de uma infância, o lugar retirado da fantasia e da “arrumação” da memória no qual cada telha ou trave de madeira, cada tábua de chão envelhecida ou falha visível se elevam à condição de indício, de mobilizador secreto, de forma pregnante. No caso da artista, o sótão arquetípico coincide com o sótão real, aquele que o ateliê realmente é ou tem, numa sobreposição feliz de circunstâncias: os recintos, os tectos esconsos e as esquinas, a clarabóia, as linhas flutuantes e os planos inclinados, as zonas de sombra e de luz, as pequenas imperfeições são abrigo, circunscrição, surpresa, defesa, prospecção, contaminação e referente reais, mas também alfabeto formal, sugestão térmica e cromática, impregnação imaginária.

O caminho que seguem as linhas que nele se desenham habitam o olhar, depois o corpo dos gestos e finalmente a quimera de quem risca ou suja (ou limpa!) o papel do modo sensível que estes grandes e pequenos formatos testemunham.

A pedra em bruto da qual se extrai aquela que será preciosa figura, por hipótese, uma outra zona metafórica deste trabalho: talvez nos auxilie a entender as formas tendencialmente quadradas ou arredondadas que fecha e preenche, que reifica, que retira do espaço e de qualquer hipótese de “paisagem”. A sua condição é radicalmente abstracta, a luz negra circunda-as ou preenche-as, a sua massa densifica resolutamente o seu potencial energético. O futuro duma pedra em bruto dificilmente é sinalizado com clareza e não sabemos qual a deriva inscrita nas que nos desenha.

O feixe estreito de luz amarela que atravessa um dos blocos terá origem nessa nascente que parece erguer-se atrás das casas e é montanha, ou dorso de baleia, onda gigante ou apenas sol. Quando interiores, os espaços abrem o seu segredo atmosférico a uma dissolução de fronteiras que os expõe a narrativas inesperadas, a queimaduras, a estrias, a nuvens baixas, fracturas e fragmentação, mas também isomorfismos desafiantes, novelos em movimento, correntes de ar, articulações, massa orgânica, corredores, janelas e (des)encontros.

O negro é uma rotina do desenho, mas é, ao mesmo tempo, assunção das trevas e da destruturação. O negro pesa, empurra ou afunda, submerge quando é mancha; e esquematiza, direcciona, anota, rodeia, acompanha, fende, quando é traço. Clama pelas cores do fogo que fabrica as cinzas, mas pode seguir sozinho o sulco cavado de um perímetro assumindo retoma construtiva. “A luz com o seu peso enorme resvala para fossos”, azul ou dourada, até que fique escura.

O desenho abre cada imagem a uma latência tridimensional que empurra a superfície para o acolhimento pontual da colagem, da textura, da experimentação sóbria de outros materiais – cartão e K-line – ou a definição de formas com o fogo: numa série, a artista molda pedaços de K-line queimado, tolhendo e procurando formas que reproduzem os buracos do rodapé, mas são por si só alfabeto abstracto duma relação com o horizonte visível, com a barreira que ele constituiu, sendo também apelo.

Esta possibilidade do volume existe em pequenos objectos que normalmente não expõe, mas fazem caminho na decisão de alguns desenhos, na sua forma de ser fendidos e estriados. Fiama fala na “indecisão do meu lugar”; a artista figura a do seu: uma geografia móvel que eleva um casulo, um sítio secreto à condição de universo pessoal, sem o fechar nem abrir em excesso, fazendo pontes cautelosas, horizontes provisórios, “cores esfumadas”, deriva fantasista e oferenda de pequenos mundos feitos à mão levantada e “com a cabeça sobre um estrado”.

Lisboa, 22 de Janeiro de 2017, Leonor Nazaré

Exposição Intermitências

Há espaços que pedem arte.

Espaços que só por si estão cheios de uma energia, de uma personalidade, que pedem uma intervenção artística para se revelarem. Por outro lado, há obras de arte que ganham vida em relação com o espaço, em diálogo com o tecto, o chão e as paredes.

Quando as duas coisas se juntam o que acontece não é apenas uma exposição de telas, mas uma instalação onde tudo faz sentido porque tudo se relaciona. É assim a exposição de Catarina Pinto Leite na Sala do Veado, chamada “Intermitências”.

“Tudo o que é subjectivo, espiritual, abstracto e misterioso fascina-me”, disse uma vez a artista. E isso é notório nesta exposição de paisagens abstractas e obscuras. Entre as luzes e a escuridão e a mistura das duas dimensões, estes trabalhos de Catarina Pinto Leite revelam um interesse pelo lado místico que a arte pode encerrar, o lado do espírito. Mas a verdade é que nestas manchas e sombras, reflecte-se um material de que é feita a Sala do Veado, como se cada quadro fosse uma lupa sobre uma imperfeição da parede, que nos leva a viajar além do espaço, dentro do espaço.

O título da exposição, “Intermitências”, refere-se à “ideia de transitoriedade, aludindo a questões relativas ao pulsar da vida, aos intervalos, a processos de interrupção, aos ciclos da natureza, situando a dimensão literal e simbólica da luz/escuridão como elemento primordial da sua prática”, como explica a crítica de arte Sandra Vieira Jürgens no catálogo. A mostra, comissariada por Manuel Costa Cabral, reúne 18 estudos preparatórios a tinta da china e grafite e 20 trabalhos recentes de diferentes formatos nos quais a artista revela uma nova direcção de trabalho, abandonando a figuração e a paisagem mais convencional que antes fazia parte do seu percurso.

in Revista Time Out
Abril 2015

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sem título, 2014. Técnica mista s/ tela 165 x 200cm

Catarina Pinto Leite expõe individualmente desde a segunda metade da década de noventa e a sua produção artística tem incidido essencialmente na pintura. Detentora de um domínio técnico assinalável e com formação no restauro de pintura antiga, no seu trabalho, essencialmente realizado a óleo sobre tela, ela vem reflectindo o interesse que lhe desperta o tratamento abstractizante e atmosférico da paisagem.

A relação com a natureza e a atenção ao seu quadro temporal e espacial de contínua transformação e transitoriedade foram desde sempre duas linhas fortes e essenciais que nortearam a sua criação pictórica. Desde o início da sua trajectória artística, Catarina Pinto Leite destacou-se na criação de imagens plásticas próximas de uma figuração de cariz neo-romântico, onde o emocional prevalece sobre o racional e onde a cor é por excelência a expressão de sensações vividas perante a paisagem.

Nos óleos realizados em diferentes momentos da produção da artista, encontramos paisagens naturais e urbanas do seu país ou atmosferas e vestígios de paisagens mais distantes, cuja realização plástica evidencia a sua contribuição subjectiva e a apreensão sensorial dos motivos presentes no seu trabalho. Essas paisagens, bem como as variações de cor que pratica, evocam e expressam estados de intensidade e inquietude existencial, sentidos e planos de transcendência, onde se pressente a aproximação singular, intimista e poética que mantém com os lugares. De resto, como afirmou num pequeno texto que acompanhou o seu trabalho numa exposição datada de 2010: “Tudo o que é subjectivo, espiritual, abstracto e misterioso fascina-me.” [1]

Nas reflexões, sentidos, gestos e poéticas que sustentam a sua prática ressalta sempre um interesse em valorizar o legado metafísico e espiritual da arte, tendo como fonte de inspiração linhas e valores de representação de diversas linguagens estéticas que oferecem possibilidades de reflexão sobre o poder transfigurador, ritual e sensível da arte. Nesse sentido podemos testemunhar a sua cumplicidade com o espírito do romantismo oitocentista e a obra pictórica de William Turner, os quais surgem como referências indirectas mas assinaladas do seu trabalho.

Na pintura de Catarina Pinto Leite combinam-se evocações de paisagens claras e nocturnas, da representação de elementos referenciais da natureza, repetido domínio do líquido e do telúrico, aos apontamentos arquitecturais, normalmente vazios da presença humana e com marcas de ausências e silêncios reveladores. Protagonizam-nos o céu, o vento, a luz, o passar do dia e da noite, evidenciando-se as transparências e a diluição das formas, as velaturas e os efeitos de obscuridade nocturna e de luminosidade ténue que intensificam o efeito dramático recorrente na sua obra.

Essas qualidades de organização e acentuação do espaço como matéria de desgaste da memória são evidentes, por exemplo, em “Exercícios da Noite”, exposição de 2004 onde Catarina Pinto Leite apresentou paisagens nocturnas, reproduções plásticas da atmosfera e da temporalidade inscritas nos locais evocados. As suas representações do Rio Douro ou da paisagem e luz lisboetas, na mostra “Uma luz assim suave, prateada…” de 2007, expunham um trabalho de pendor autobiográfico, assente na relação pessoal, afectiva com a cidade que habita e as vistas predilectas que a recortam. Em 2009, na obra “O Lugar em Questão”, evocou a paisagem urbana, as ruínas e os vestígios da cidade italiana de Aquila, expressando quer o poder e a força da natureza quer a sensação de fragilidade humana, a sua solidão e melancolia. Já a sua última mostra realizada em 2013, “O Mundo Precisa de Mais”, era composta por trabalhos nos quais aludia a lugares de passagem – nomeadamente pontes – que sugerem a existência de um percurso e pelos quais intuímos um movimento simbólico, de abertura e procura de outros horizontes existenciais.

Para esta exposição individual na Sala do Veado, Catarina Pinto Leite escolheu um conjunto de trabalhos em que a pesquisa e o exercício experimental, sustentados na dimensão intuitiva da prática artística, se oferecem como aspectos determinantes de um processo criativo assente no aprofundamento do sentido abstracto da pintura e do sentido gráfico do desenho.

Intitulada Intermitências, a mostra comissariada por Manuel Costa Cabral reúne 18 estudos preparatórios a tinta-da-china e grafite e 20 trabalhos recentes de diferentes formatos, nos quais a artista revela uma direcção de trabalho com novas possibilidades.

Se em obras anteriores a sua produção se caracterizava por cenas e motivos tematicamente enquadrados numa visualidade e sensibilidade estéticas muito próximas do neo-romantismo, nas obras agora apresentadas o sentido de abstracção surge mais evidenciado, num registo de maior depuração e essencialidade em relação a séries já realizadas. É uma viragem já pressentida em “Forças da Natureza” (2010), nomeadamente em trabalhos como “Outro Lugar”, “Tudo por Descobrir” e, sobretudo, em “Insustentável Leveza”; mas é outra a intensidade dos trabalhos actuais.

Em detrimento das opções estilísticas que aproximavam os registos anteriores (por exemplo, o uso e a paleta de cores), na mostra agora realizada sobressaem a mancha, os fundos mais abstractos, os contornos informes, o claro-escuro e os jogos de luz e sombra de maior sentido gráfico. Patentes nas obras expostas, a coexistência de diferentes possibilidades de explorar as formas inscritas, a textura do papel, a densidade do preenchimento, o ritmo, a direcção, o contraste, a intensidade e a marca do tratamento da tinta-da-china reforçam a mudança. As obras “Fenda”, “Espírito do Lugar” ou “Divisível” são disso exemplo. Outra característica determinante das obras em exposição é a inclusão de figuras, que surgem também sob a forma de mancha, como ocorre em “Casa Habitada”.

Com esta viragem, Catarina Pinto Leite marca nas suas composições uma relação enigmática e distanciada com a nossa realidade perceptível, sem porém deixar de a expressar, traduzindo e ampliando sobremaneira o espaço de possibilidades interpretativas e  o sentido metafórico do conjunto.

Inseparável desta abordagem, a Alegoria da Caverna, tema (mas também título de uma das obras expostas) que explorou intensamente através das diversas relações estabelecidas entre os motivos gráficos e plásticos referidos, funciona como fio condutor num percurso dinâmico que, de quadro a quadro, de imagem a imagem, nos oferece associações complementares de leitura e convoca questões de âmbito filosófico e metafísico, entre a natureza da visão e da percepção, a aparência da realidade e a natureza da verdade, os sentidos estabelecidos entre a claridade e a escuridão, a luz e a sombra, o ser e o parecer, o ser e o não ser, deixando em pano de fundo a dicotomia entre o plano sensível e o das ideias.

Nesta exposição é também essencial referir a ideia de “Intermitências” que lhe dá título. Através dela a artista invoca a ideia de transitoriedade, aludindo a questões relativas ao pulsar da vida, aos intervalos, a processos de interrupção, aos ciclos da natureza, situando a dimensão literal e simbólica da luz/escuridão como elemento primordial da sua prática.

Interessante nesta exposição é presença de um conjunto de desenhos preparatórios, que em complemento às peças expostas, revelam muitos dos caminhos traçados durante o processo de trabalho da autora, permitindo ao espectador aceder a fases particulares de pesquisa e exercício da sua criação plástica. Relacionando alguns dos esboços e séries presentes na mostra, acontece por exemplo destacar-se a intensificação do grau de depuração formal de certos registos da sua obra actual e evidenciarem-se as transformações que certos motivos e pormenores experimentam em diferentes momentos do desenvolvimento da sua produção artística. Uma oportunidade que constitui, sem dúvida, um apelo suplementar à descoberta ou redescoberta da obra da artista.

Sandra Vieira Jürgens.

[1] Catarina Pinto Leite in Forças da Natureza. Lisboa: Galeria de São Mamede, 2010, p. 1.

O mundo por outra janela

Travessia, 2013. Óleo s/ tela 100 x 150cm

Travessia, 2013. Óleo s/ tela 100 x 150cm

Conheci a obra de Catarina Pinto Leite em 2007, por ocasião de uma exposição em que apresentava paisagens. Desde então, tem continuado a desenvolver uma pintura séria e exigente, ancorada no trabalho do espaço e das formas que nele se destacam. Ora centrada na representação esquemática do lugar da natureza, ora no trabalho mais experimental das possibilidades da abstracção, impressiona-me agora, tal como já me tinham marcado na altura, o seu extremo domínio técnico e a perseverança com que vai construindo um trabalho autêntico e original.

A sua mais recente série mantém-se no âmbito da paisagem, este género pleno de possibilidades elegeu entre todos. Contudo, no espaço feito de velaturas de dominante ora azul, ora dourada, distinguem-se ruínas de pontes, passadiços, cais palafíticos. Para quem já as visitou, estas últimas construções impressionam pela rapidez com que são destruídas pela força do clima e reconstruídas ao sabor das necessidades do homem. Efémeras, tiram a sua beleza desta característica de que nunca abdicam, contrariando-a pela capacidade de se replicarem e multiplicarem ao sabor da vontade humana.

Destas ruínas, Catarina destaca a função e a forma, os dois elementos fulcrais. A última, reencontramo-la na sobreposição de oblíquas escuras que preenchem parte do espaço disponível. A primeira, num conceito que adoptou para a série, e que se materializa na reflexão sobre a ponte, o elo, a ligação.

A ponte: se na antiga pintura de paisagem ela possuía sempre uma carga funcional e simbólica muito precisa (a de unir visualmente dois planos distintos, e a de reforçar metaforicamente a ideia de descoberta ou reflexo de si, que a paisagem romântica sempre implicava), hoje essa capacidade reforçou-se com a multiplicidade de conexões, reais e virtuais, que a nossa contemporaneidade criou. E, contudo, apesar das inegáveis vantagens que a técnica contemporânea nos traz, nunca como hoje se corre o perigo de viver tão isolado, tão alheio dos nossos iguais, tão ensimesmado em frente do ecrã do nosso computador ou tablet, resumindo a nossa vida social ao envio de sms, e-mails e outras mensagens em murais, frágeis pontes reduzidas à sua mais ensimesmada expressão.

Num belíssimo texto de Rui Marques que Catarina me deu a ler, que a inspirou enquanto trabalhava esta série, o autor fala dos antigos pontífices do Império Romano, aqueles que “faziam pontes”. Hoje, o vocábulo está exclusivamente associado ao catolicismo. Mas, recuperando o seu sentido inicial, Rui Marques fala de uma construção simbólica que, quando se materializa, transforma o próprio sujeito, que “ganha cores que não tinha” e “vê o mundo por outra janela”. Voltamos assim à pintura: ela que foi durante séculos como uma janela sobre o mundo, é agora, na nossa contemporaneidade, uma janela sobre a subjectividade da artista.

Por isso as pontes referidas nesse texto poderão, ou não, replicar uma forma apreendida pela visão, ou traduzir-se num exercício puramente abstracto onde a distância entre tonalidades escuras e claras, entre as espessuras e as transparências, entre o gesto visível e as superfícies lisas se transpõe através da pintura.

Luísa Soares de Oliveira

A luz reinventada nas “Forças da Natureza”

Catarina Pinto Leite expõe trinta telas,a maioria a preto e branco, na Galeria São Mamede, em Lisboa.

O Absoluto, 2010. Óleo s/ tela, 130 x 180cm

O Absoluto, 2010. Óleo s/ tela, 130 x 180cm

A OITAVA EXPOSIÇÃO INDIVIDUALde Catarina Pinto Leite é inaugurada na próxima quinta-feira, na Galeria São Mamede, em Lisboa, onde ficará patente até 15 de Janeiro.

São trinta telas a óleo, a maioria das quais a preto e branco… e cinzentos. Forças da Natureza é o nome deste conjunto de trabalhos, executados «num período muito intenso, de imersão total», diz a pintora à NS’. Embora saídos da mesma «fornada», cada quadro é um caso: «Há uns que me dizem muito e outros que me dizem menos, depende da relação que tive com cada um, mas pintar é sempre um prazer», diz.

No catálogo, o crítico Martim Lapa considera que neste conjunto de obras, «objecto de um aparente minimalismo resultante da ausência de cor, (…) a paisagem está agora despojada de toda a intenção de natureza realista», numa transfiguração que «permitirá todas as interpretações, abrindo para um universo maior de abstracção».

Vasco Graça Moura escreveu a propósito dos quadros da pintora: «A perspectiva tradicional altera–se, a matéria ganha novas consistências, os planos fundem-se ou interpenetram-se de acordo com as pulsões ditadas por um imemorial impulso lírico e onírico, enquanto a luz é reinventada como breve fulgor a irromper inesperadamente do avesso do dia ou das trevas em muda suspensão, aqui e ali, a deixar entrever o inominável e o interdito.»

A artista dedica-se agora apenas à sua própria obra, mas já trabalhou em restauro, na Oficina Ocre. Acabou por abandonar esse trabalho por sentir que ali não havia lugar para a criação, mas ao qual reconhece óbvia importância. «O retoque e as velaturas deram-me mão», revela. Além de Lisboa, Catarina Pinto Leite já teve obras expostas em Madrid, no Porto, na Régua, no Funchal, em Oeiras e no Montijo.

T: J.A.S.

Artigo do DN disponivel aqui.

Texto Revista Bombarte – palavra de artista

Miragem, 2005. Óleo s/ tela 89 x 116cm

Miragem, 2005. Óleo s/ tela 89 x 116cm

Onde será que me encontro?

“…Faço paisagens com o que sinto” dizia Fernando Pessoa.
Questiono-me muitas vezes e muitas vezes me questionam também!
São pinturas alegres ou tristes, são claras ou escuras, são poesia ou música, vêm de dentro ou de fora, são pinturas que convidam à meditação ou ao sonho?

Penso que a paisagem pode ser vista de duas formas:
A primeira é aquela em que a natureza em si, é a fonte de inspiração, é aquilo que se vê, mensurável e independente de nós (real e objectivo) e a segunda a paisagem poética, subjectiva e espiritual que surge a partir de sensações vividas e sentidas.

Em oposição à arte renascentista, na qual se procurava sistemática e conscientemente o equilíbrio entre a razão e o sentimento, está a pintura romântica, onde o emocional prevalecia sobre o racional.
Escritores, filósofos, pintores, músicos e outros vieram “revolucionar” as ideias e os ideais da época. No caso da pintura, as paisagens sofreram grandes alterações desde aí até aos nossos dias. A subjectividade e as emoções de cada artista são transpostas para a tela e cada um pinta o que lhe vai na alma e interpreta a natureza de diferentes formas.

Sinto de facto muito a natureza. Que ela habita em mim assim como a música e a escrita.
Tudo o que é subjectivo, espiritual, abstracto e misterioso fascina-me. A ideia de que tem que haver uma explicação para tudo, a obsessão dos conceitos, assusta-me. Porquê? Para quê?

O inesperado e o desconhecido que tantas vezes desestabilizam também são fonte de criatividade, de energia e de vida.

Como dizia Oscar Wilde, – “se você não consegue entender o meu silêncio de nada irá adiantar as palavras, pois é no silêncio das minhas palavras que estão todos os meus maiores sentimentos.
Acho que é neste circuito que me encontro, e neste silêncio que me refugio, no mundo das formas e das cores, das sugestões e das abstracções, das penumbras, das sombras e das luzes.
Através da pintura posso atravessar o deserto, escutar o silêncio e reencontrar-me.

Catarina Pinto Leite
Setembro 2009.

Forças da Natureza

O Essencial, 2010. Óleo s/ tela 89 x 116cm

O Essencial, 2010. Óleo s/ tela 89 x 116cm

Sobre a pintura de Catarina Pinto Leite presente nesta exposição uma constatação é desde logo – e uma vez mais, assinalável, a de que a autora adquiriu uma competência técnica e mental de representação que lhe confere não só a maturidade, entendida como reconhecimento, como também uma viva capacidade de auto-crítica que lhe confere necessariamente a independência, desta vez enquanto condição indispensável para exercer livremente esta profissão. A coerência é assim a mesma que se encontra em toda a obra de Catarina, nela sobressai ainda o vigor idêntico ao de Turner, o gestual expansivo e decisor que marca a obra não vai conhecer retrocesso, porque a intuição está lá desde aquele momento sobrenatural do olhar sobre a tela intocada.

Desta vez as obras apresentadas são objecto de um aparente minimalismo resultante da ausência de cor. Mas os densos tons de escuro e a leveza das velaturas cinzentas expressam profundidades diversas. É esta intencionalidade que dá lugar à interioridade destas paisagens. Porque estes nocturnos provêm do mais íntimo sentimento e são a expressão do que a artista quer partilhar connosco. Os vultos que sobressaem na paisagem, originados pelo gesto inicial, poderão ser rochas – que poderão ser corpos, serão também vagas intencionais, ainda que oníricas, sobre a expressão da vida interior, sobre uma noite sonhada uma e outra vez. Esta ancestralidade será assim e também o reflexo de toda obra anterior da artista, daí também a sua pertinência.

A paisagem está agora despojada de toda a intenção de natureza realista, já de tudo o que não é essencial. Esta sua transfiguração permitirá agora todas as interpretações, abrindo para um universo maior de abstracção. Será este o maior mérito, o de comunicar livre e generosamente, num contexto de partilha, o que poucos sabem expressar mas que muitos podem reconhecer na sua intimidade.

Aqui residirá o diálogo com o visitante.

Martim Lapa
Lisboa, Novembro de 2010

Terra inóspita

Casa com vista, 2009. Técnica mista s/ tela 100 x 73cm

Casa com vista, 2009. Técnica mista s/ tela 100 x 73cm

Catarina Pinto Leite diz-me que teve presente nestes quadros a tragédia que há pouco tempo atingiu a cidade italiana de Aquila. Na sua revisita plástica desses lugares de desgraça, há experiências formais em que o gesto rápido procura estruturas ligadas à paisagem urbana que acabam por se desconjuntar.

Fica-se assim perante a emergência de uma espécie de escrita feita a partir de grandes “caracteres”, ou, se se preferir, de um alinhamento de fortes blocos rasgados no espaço, ou rasgando o espaço, tudo se interpenetrando, como se de tudo apenas pudessem permanecer umas ombreiras oscilantes, restos de algo que se desequilibrou e nos desequilibrou, vestígios, alusões àquilo que antes existia e àquilo a que tudo ficou reduzido.

O que fica depois de tudo ter sido abalado, os seus melancólicos vestígios, as suas superfícies espraiando-se entre o negro e o amarelo, as cores de uma terra batida pelo sol, pela desgraça, pelo sentimento trágico da vida. O que fica é este trajecto de agonias recuperadas contra o esquecimento, este indagar obsessivamente poético na sua grave melancolia de percorrer escombros e cinzas que vão emergindo num desfile sobre horizontes instáveis, a que alguns dos fundos metalizados a prata conferem ainda uma tonalidade húmida de ameaças. Tanto seguimos por paisagens de terra e água vistas a uma certa distância, como nos aproximamos de casas, muros e outras construções, podendo deambular entre elas e as sombras escurecidas e lunares que elas nos vão reenviando nestes como que cenários de uma ópera trágica a delir-se nos mares e nos sarros da memória.

São imagens de uma terra inóspita em que o olhar entra, forçado a aceitar que nada do que é humano nos é alheio, que os sonhos podem facilmente esbarrar com fragmentos de pesadelos proporcionando-nos uma segunda natureza e que o tempo vai consumindo os seres e as coisas. Mas aqui ao tempo juntaram-se a catástrofe e o sentimento de uma solidão que nos confronta com o destino e com tantas das suas cruéis imprevisibilidades.

Vasco Graça Moura.
Outubro 2009.

Uma luz assim suave, prateada

Tejo ao entardecer, 2007. Técnica mista s/ tela 73 x 100cm

Tejo ao entardecer, 2007. Técnica mista s/ tela 73 x 100cm

Por trás da pintura, dos quadros, há sempre histórias. Muitas vezes os artistas escondem-nas, e refugiam-se num silêncio que é próprio desse mundo de fomas e cores onde a palavra raramente entra. Para conhecermos o que se esconde além da pintura, é preciso quebrar a reserva natural de que o pintor se reveste e, se ele o deixar, entrar nesse mundo onde a arte acontece.

Com Catarina Pinto Leite as coisas não se passam de forma diferente. Ficamos assim a saber que quis, para esta exposição, tratar o tema da cidade onde vive, essa cidade que tem uma luz diferente de todas as outras, que a caracteriza e lhe imprime a sua qualidade única. Tendo que realizar um trabalho que a levou à colecção do Arquivo Fotográfico de Lisboa, percebeu que o preto e o branco eram suficientes – tinham-no sido, durante décadas – para transmitir essa qualidade lumínica que a interessava. Deste contraste primordial surgiu depois a folha de prata aplicada – técnica que domina, já que durante anos praticou o paciente trabalho de restauro da pintura antiga -, e que toma aqui o lugar do céu: céu de prata, assim, mas também espelho, já que este metal foi uma das matérias de que os espelhos antigos se fizeram.

Com uma prática matizada por essa técnica de constante refazer o antigo que domina, talvez Catarina Pinto Leite procurasse apenas o brilho líquido e metálico que lhe sugeriam as manhãs desbotadas de Inverno, quando do rio vem uma neblina pesada que envolve a Baixa, escorre pelo Rossio e pela Avenida acima, chega aos bairros novos a norte e se mistura com os ruídos e os fumos da capital para fazer sentir o frio áspero de todos os dezembros urbanos. Talvez a artista pensasse apenas no esboroar das cores e das formas que a humidade traz consigo, ou nos focos de luz que semáforos, faróis, candeeiros – e o sol às três da tarde – que assomam entre as sombras.

É que esta é uma pintura urbana, e também um pouco mundana, bem à imagem da vida de todos os dias na cidade grande. Uma pintura que também procura as suas raízes no romantismo oitocentista, esse que via na Natureza um reflexo da alma do artista. Como os olhos eram e são o espelho da alma, assim esta luz metálica reflecte o estado de espírito de quem a vê e quem a pinta. No sentido literal, mesmo, já que a prata permite entrever a silhueta do visitante na paisagem pintada. Esta é uma pintura a seguir e a observar com atenção no seu desenvolvimento futuro.

Luísa Soares de Oliveira

A Paisagem é um Estado de Alma

Encanto, 2005.  Óleo s/ tela 130 x 130cm

Encanto, 2005. Óleo s/ tela 130 x 130cm

“Uma paisagem pode ser o lugar dos sobressaltos íntimos”, onde “a luz é reinventada como breve fulgor a irromper inesperadamente (…) das trevas em muda suspensão”, conforme escreve Vasco Graça Moura, no prefácio que dedica a Catarina Pinto Leite, a propósito da pintura que expôs, em Fevereiro de 2004, na Galeria São Mamede, Lisboa. Volvidos 2 anos, a sua linguagem pictórica permanece fiel a si mesma, oscilante entre as tonalidades nocturnas de melancólica ressonância e a surpreendente aurora de vermelhos incandescentes.

No vaivém que estabelece entre a visão fantasmática e intimista da natureza e a sua dissolução espacial, a paisagem é um estado de alma, na pintura de subtis vibrações luminosas de Catarina Pinto Leite.

Fluente, densa e atmosférica, a sua pintura de silenciosas velaturas reporta-nos à imensidão de mares, nuvens e planícies de horizontes infindos.

Da penumbra emerge a evanescente e discreta luz que se vislumbra em repentinos brancos sabiamente doseados. “Efeitos Fugidios”, 2006, e “Para além de nós”, 2006, são exemplos a reter, com verdes, azuis e ocres, e, em alusão ao Porto, “Segredos do Rio” (Douro), 2005, em frios verdes azulados. A envolvente neblina mal deixa ver a vaga sugestão de ponte, num quadro em tons quentes, intitulado “Encanto”, 2005, com amarelos e ocres diluídos. No alongado quadro “Travessia”, 2005, sobressai o intenso vermelho alaranjado, bem como em “A Ilha”, 2005.

A luminosidade é primordial no paisagismo abstractizante de Catarina Pinto Leite, que não abdica das múltiplas nuances do claro-escuro.

Em “Abstracção”, 2005, tons diurnos, verdes azulados, amarelos, ocres e súbitos clarões esbranquiçados promovem a diluição de fronteiras na visão difusa de um espaço de infinitude.

Em “Um Vago de Visão”, 2006, o olhar paira em horizontes sucessivos, na incerteza do que se indefine em densos castanhos, ocres alaranjados e escassos brancos.

A pintura, que continuamente se desfaz e se refaz na persistente horizontalidade da paisagem, desencadeia em nós a capacidade de ver, sentir e reflectir sobre esse espaço aberto e ilimitado.

Olhando a exposição, no seu conjunto, deparamos com obras que, em termos paisagísticos, simbolizam a noite e o dia.

A noite oculta o que o dia revela. Da mais obscura treva emerge a ténue luz redentora da madrugada. No alvor do novo dia, tudo se dissolve na transparência luminosa do espaço atmosférico. Ao mistério da obscuridade nocturna se contrapõe a vibrante dissonância diurna da cor tímbrica, entretanto recuperada na sua pureza máxima.

Eurico Gonçalves
Fevereiro, 2006